O professorado reproduz, sob ordem do patrão, a ordem vigente. O patrão faz o que quer com seu tempo de trabalho. Seu trabalho, portanto, é alienado. Ele é um trabalhador. Como tal, pode resistir: não fazer o que o patrão, que paga por suas horas de trabalho, quer que ele faça. Ele decide o que fazer num tempo que não lhe pertence. Ensina o que quer. A hora que um pai de aluno reclama, o coordenador entra em sala para assistir sua aula, ou lê sua prova, ou vê o resultado do ENEM, ele será cobrado, assim como um operário é cobrado quanto à qualidade ou quantidade de peças produzidas. A comparação é difícil, mas possível. Assim também é um jornalista. Mas o fruto inteiro do seu trabalho é a publicação, totalmente verificável por seu patrão, o que torna sua resistência muito mais difícil. É claro que aqui não falo de projetos de educação popular ou cooperativas educacionais, nem tampouco de imprensa alternativa. Falo de trabalhadores que não detêm meios de produção.
Mas, nessa louca sociedade, alguns trabalhadores podem ter dúvidas quanto ao fato de estarem realmente vendendo seu trabalho, seja por verdadeira consciência de classe, seja por não aguentarem o peso de estarem alheios de si boa parte de seu tempo. Então, passam a realmente pensar como seus patrões, e então não estão mais vendendo sua força de trabalho a seus patrões, obrigados a se ver fazendo o que eles querem. Estarão fazendo o que querem, num processo próximo à realização da liberdade Roussoniana ou Hegeliana. São livres ao, livremente, escolher fazer o que querem que seja feito. Embora eu não seja um ferrenho adepto da liberdade negativa (hobbesiana), não me parece a realização mais adequada da subjetividade. O trabalhador que assim faz se identifica com a classe burguesa, e o que nos permite afirmar que a produção jornalística da folha não é obra de pervertidos editores que desvirtuam as matérias dos pobres repórteres é o conhecimento que se tem do processo de produção que ali se engendra. Não duvido que existam pobres repórteres trabalhando na folha, que eventualmente escrevem aquilo que os editores querem que se escreva, de maneira a manter seu emprego, totalmente cientes de que, no tempo que vendem ao jornal, não fazem o que querem. Mas a consciência de que o tempo não lhe pertence é algo duro de se aguentar por muito tempo, e mesmo alguns amigos meus que já trabalharam nesses meios relatam total subserviência de muitos "colegas" (podem ser chamados de colegas esses pobres proletários?).
É claro que tudo isso pode ser dito de professores. De alguns "colegas" professores do Dante, Porto Seguro, Escola da Vila certamente se pode dizer exatamente a mesma coisa. Porque então historiadores têm especial predileção por maldizer jornalistas, visto que são, em sua maioria, professores? Ora, além da diferença de escala, há também a birra pelo papel por esses adotado, em geral considerado prejudicial mesmo ao mais reacionário professor, tal sua capacidade de desinformação. De resto, nenhum professor será visto ameaçando alguma autoridade pública, ou estudante da usp (como eu já fui ameaçado por um reporter da Globo, um reporter bem chinfrim). "Vou publicar alguma coisa contra você".
Uma vez, comendo no Rancho Nordestino, excelente casa do norte na esquina da Santo Antônio com a Manuel Dutra, vi um sujeito esbravejando: "estou sendo expulso! Amanhã vou publicar na minha coluna uma nota sobre essa espelunca!". O rapaz comeu, bebeu (não muito), pediu a conta. A conta chegou rápido demais. A garçonete jogou a conta sobre a mesa, correndo, enquanto ia atender outra mesa. Para mim, essa cena resume bem minha aversão a jornalistas. À categoria. É claro que num outro mundo possível isso pode não ser assim. Mas tenho certeza que meus amigos e parentes jornalistas, Pedro, Rodolfo, Bruno, Bruna, verão algum fundamento nessa imagem. Eu não os considero essa corja. Não conheço tantos jornalistas assim. Já amigos e colegas professores, destes conheço alguns que são da corja contra-revolucionária (Tiago, não estou falando de você). Conheço muito mais professores. E, Pedro, existe alguma ligação entre defesa corporativa e negação da alienação do trabalho. Nós já vimos onde vai dar o sindicalismo que defende o emprego e suas "melhores condições".