Admirável mundo novo


12/05/2011


Alice e Pedro

No começo era uma idéia
que com o tempo ganhou corpo
e cresceu, ainda informe
em seus proprios sentimentos
já bem claros desde sempre
esfumaçados abraços
no etéreo desconhecido.

Sendo apenas um
sendo o mesmo ou vários
trilhando seus passos
em caminho líquido
o novo se abria
alegre e inocente.

Se vão encontrar a tristeza
a mágoa ou a desilusão
nela inventação brincadeira
ou música ou divertimento
a preencher suas noites frias
ao lado dos ombros amigos
que desde o começo gestaram
aquela idéia do começo.

Não sendo idéia mas carne
com todo o peso que tem
que pelo mundo se espalhem
que, ainda idéia, sorriso já tem.

Escrito por Ricardo às 20h57
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28/03/2011


Hay Kay

O ser que renasce
carrega a pesada dor
de já ter morrido

Escrito por Ricardo às 19h35
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O ser que definha

Não que eu me importe
com os juros altos
a balança comercial
e a métrica dos versos
que a bem dizer
nem bem versos são.

Nem tampouco a indiferença
contemporânea
e o último lançamento
da grife ou do perfume
me comovem
embora alguma novidade
tecnológica
me salte aos olhos.

É certo, me atingem,
desvalorizam
meus bens
mas meu ser está
bem protegido
debaixo
duma casca grossa
de rude e difícil
indiferença.

Escrito por Ricardo às 19h33
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18/03/2011


Tunel

A paixão vem de não-sei-onde
se deixa ver pelos sinais
que transbordamos descuidados
ao mesmo tempo desejosos
de deixar clara a novidade.
Do outro é só isso que temos,
intuição da confusão.
De nós, certeza do transtorno
que inundará o cotidiano.
O que há de triste no final
não é saber que o outro sente
o sentimento que outra feita
compartilhávamos incautos.
É o medo seco e represado
de nos sinais que os olhos soltam
desavisado perceber
aquele mesmo calafrio
que ainda, sem aquele orgulho,
o espectador no peito tem,
mas não lança seus avisos
tranquilizado pelo tempo
e remexido no momento
em que não sabe mais se vê
nos mesmos gestos que não tem
seu companheiro do começo
ou outro ser de não-sei-onde.

Escrito por Ricardo às 12h58
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17/03/2011


Me devolve

No começo era apenas desejar
de longe, um tremendo calafrio.
Não era o desespero pelo novo
Nem o esgotamento do passado.

Em seguida vieram os olhares
e as palavras lançadas tortamente
querendo disfarçar suas intenções
sem notar os sorrisos impudicos.

Depois, esvaziada a novidade
de qualquer descoberta incandescente
O sorriso e o olhar sabidos meus

Deram pra extraviar-se a outros destinos
e a obliquidade própria das palavras
diz o que o rosto esconde: o olhar é meu.

Escrito por Ricardo às 18h15
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23/11/2010


Variação antes do tema

A couraça semiótica
Os soldados analíticos
Os penhascos rigorosos
permanecem impassíveis
protegendo o intocável
território da poesia.
Escrever pesadamente
sem aquela sisudisse
tão presente em bacharéis
recitando seus consensos
e também maneiramente
indagando que beleza
representa com presteza
todo o peso da verdade
para a crítica intangível
não permitem os doutores
dos costumes protetores.
Mas os costumes
só são verdadeiramente belos
fora da métrica.

Escrito por Ricardo às 00h57
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13/09/2010


Sobre o jornalismo

O professorado reproduz, sob ordem do patrão, a ordem vigente. O patrão faz o que quer com seu tempo de trabalho. Seu trabalho, portanto, é alienado. Ele é um trabalhador. Como tal, pode resistir: não fazer o que o patrão, que paga por suas horas de trabalho, quer que ele faça. Ele decide o que fazer num tempo que não lhe pertence. Ensina o que quer. A hora que um pai de aluno reclama, o coordenador entra em sala para assistir sua aula, ou lê sua prova, ou vê o resultado do ENEM, ele será cobrado, assim como um operário é cobrado quanto à qualidade ou quantidade de peças produzidas. A comparação é difícil, mas possível. Assim também é um jornalista. Mas o fruto inteiro do seu trabalho é a publicação, totalmente verificável por seu patrão, o que torna sua resistência muito mais difícil. É claro que aqui não falo de projetos de educação popular ou cooperativas educacionais, nem tampouco de imprensa alternativa. Falo de trabalhadores que não detêm meios de produção.

Mas, nessa louca sociedade, alguns trabalhadores podem ter dúvidas quanto ao fato de estarem realmente vendendo seu trabalho, seja por verdadeira consciência de classe, seja por não aguentarem o peso de estarem alheios de si boa parte de seu tempo. Então, passam a realmente pensar como seus patrões, e então não estão mais vendendo sua força de trabalho a seus patrões, obrigados a se ver fazendo o que eles querem. Estarão fazendo o que querem, num processo próximo à realização da liberdade Roussoniana ou Hegeliana. São livres ao, livremente, escolher fazer o que querem que seja feito. Embora eu não seja um ferrenho adepto da liberdade negativa (hobbesiana), não me parece a realização mais adequada da subjetividade. O trabalhador que assim faz se identifica com a classe burguesa, e o que nos permite afirmar que a produção jornalística da folha não é obra de pervertidos editores que desvirtuam as matérias dos pobres repórteres é o conhecimento que se tem do processo de produção que ali se engendra. Não duvido que existam pobres repórteres trabalhando na folha, que eventualmente escrevem aquilo que os editores querem que se escreva, de maneira a manter seu emprego, totalmente cientes de que, no tempo que vendem ao jornal, não fazem o que querem. Mas a consciência de que o tempo não lhe pertence é algo duro de se aguentar por muito tempo, e mesmo alguns amigos meus que já trabalharam nesses meios relatam total subserviência de muitos "colegas" (podem ser chamados de colegas esses pobres proletários?).

É claro que tudo isso pode ser dito de professores. De alguns "colegas" professores do Dante, Porto Seguro, Escola da Vila certamente se pode dizer exatamente a mesma coisa. Porque então historiadores têm especial predileção por maldizer jornalistas, visto que são, em sua maioria, professores? Ora, além da diferença de escala, há também a birra pelo papel por esses adotado, em geral considerado prejudicial mesmo ao mais reacionário professor, tal sua capacidade de desinformação. De resto, nenhum professor será visto ameaçando alguma autoridade pública, ou estudante da usp (como eu já fui ameaçado por um reporter da Globo, um reporter bem chinfrim). "Vou publicar alguma coisa contra você".

Uma vez, comendo no Rancho Nordestino, excelente casa do norte na esquina da Santo Antônio com a Manuel Dutra, vi um sujeito esbravejando: "estou sendo expulso! Amanhã vou publicar na minha coluna uma nota sobre essa espelunca!". O rapaz comeu, bebeu (não muito), pediu a conta. A conta chegou rápido demais. A garçonete jogou a conta sobre a mesa, correndo, enquanto ia atender outra mesa. Para mim, essa cena resume bem minha aversão a jornalistas. À categoria. É claro que num outro mundo possível isso pode não ser assim. Mas tenho certeza que meus amigos e parentes jornalistas, Pedro, Rodolfo, Bruno, Bruna, verão algum fundamento nessa imagem. Eu não os considero essa corja. Não conheço tantos jornalistas assim. Já amigos e colegas professores, destes conheço alguns que são da corja contra-revolucionária (Tiago, não estou falando de você). Conheço muito mais professores. E, Pedro, existe alguma ligação entre defesa corporativa e negação da alienação do trabalho. Nós já vimos onde vai dar o sindicalismo que defende o emprego e suas "melhores condições".

Escrito por Ricardo às 16h57
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06/07/2010


E agora?

Passei a repetir constantemente essa expressão. Acho que tudo faz parte de uma situação na qual eu não sei muito bem se o que estou fazendo é o que deveria estar fazendo. Mas quando paro de enrolar e de fato faço o que deveria estar fazendo, me sindo fazendo o que deveria estar fazendo. Mas o que eu realmente não deveria fazer é não fazer o que deveria fazer, tendo uma falsa impressão de que não deveria fazer o que deveria fazer. Mas eu devo. E gosto disso. Então devo fazer o que devo fazer. E agora?

Escrito por Ricardo às 13h30
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05/01/2010


Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

(Carlos Drummond de Andrade, em Claro Enigma, livro de 1951)

Escrito por Ricardo às 14h14
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01/09/2009


Seqüência/Lembranças

O amor é a constante lembrança do outro em si e de si no outro. o luto é rompimento da lembrança de si no outro. A melancolia é o prolongamento narcísico da lembrança do outro em si. A vida é a constante afirmação de si e do outro, até a não-existência de si.

Escrito por Ricardo às 12h40
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03/02/2009


?

Você sabe o que é aficaz?

Escrito por Ricardo às 16h36
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23/12/2008


conto de natal (hay kay expandido)

 

Nunca soube direito o que é natal.
Família, embora, era conhecida.
Carinho era difícil de arrancar
Contra ou a favor dele, pequenino.

 

As datas que na escola se aprendiam
se afastaram da imagem de um cartão,
tarefa obrigatória apreciada,
até, por uma estrada indistinguível.

 

A alegria do encontro e da família,
dos amigos distantes, importantes,
de lágrimas, vazios, ganhou espaço

 

à medida que a vida se inundou
de perdas e tristezas, tendo fome
do vazio preenchido, alma plena.

Escrito por Ricardo às 18h09
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Intervalos

O de sexta é grandiloquente. Sextas no piano fazem qualquer iniciante parecer um mestre. Arranjos com sextas são funcionais, fáceis.

A quinta é dura, imponente, difícil.

Terças se tornaram brega, principalmente por causa do sertanejo, às vezes injustamente desdenhado. Mas um intervalo melódico de terça menor dificilmente deixará de arrancar lágrimas, quando bem usado. Fácil não é.

A quarta é um enfeite fácil. Liminha adora.

Mas um intervalo de segunda, poxa vida, o mais fácil, desse eu não sei falar nada...

Escrito por Ricardo às 17h35
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16/07/2008


Duas considerações sobre a legislação no país da piada pronta

1) Como é possível que uma determinada parcela da população alardeie a "altíssima carga tributária" do país sendo que a mesmíssima parcela da população acha um absurdo o montante dos créditos disponíveis nos programas "nota fiscal paulista" e "nota fiscal paulistana"?

2) É muito engraçado quando um bêbado engraçado vira notícia ("quem bebe tem que tomar mesmo!"), e mais ainda quando o editor do jornal não tem o mínimo senso de humor.

Escrito por Ricardo às 19h47
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28/12/2007


Silogismos

Há três deturpações básicas do que seja entendido como "público". A primeira é a simples privatização. O que é público é de todos, logo, é meu. Sendo meu, não é de mais ninguém, apenas meu. A segunda, é a omissão. O que é público não é de ninguém, tampouco meu, e portanto não é importante. Em última instância, inexiste. A terceira, mais cruel, é a que apregoa como sendo pública uma determinada concepção, individual, de mundo. "Público" passa a ser um adjetivo para sua política, suas propostas. Esta última, a que mais se aproxima da concepção original, é falha por sempre estar próxima da noção de "democracia". Falha por se esquecer que a república precisa de papéis definidos, nos quais os que tem o papel de obecer apenas obedecem. Mas antes de colocar em prática qualquer tentativa real de democracia, os defensores da república democrática defenderão a manutenção de seu status de ter o papel de mandar. Então retornam à primeira deturpação.

Escrito por Ricardo às 01h40
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Histórico